Alta velocidade na internet traz risco de vício e isolamento de jovem
O LADO NEGRO DA
BANDA LARGA
Estudo demonstra aumento de uso de jogos
Fabiana
Beltramin/Folha Imagem
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Jovens
batalham em games com modo multijogador; o ponto de encontro são
as LAN houses |
HOWARD W. FRENCH
DO "THE NEW YORK TIMES"
Na Coréia do Sul, a internet de alta velocidade teve a maior penetração
de mercado em todo o mundo. O país já vive de perto o futuro da
banda larga.
Mais da metade de todas as residências sul-coreanas possui conexões
de alta velocidade, comparadas com menos de 10% nos EUA, e a explosão
dos sites gerou movimentos que exercem efeitos da política à cultura
do consumidor.
Entretanto o que vem sendo destacado cada vez mais hoje em dia é o
lado mais sombrio dessa história de sucesso tecnológico.
O maior sucesso da banda larga, a única atividade que faz sombra a
todas as outras, são os jogos de azar on-line, disputados por 80% dos
sul-coreanos com menos de 25 anos, segundo estudo recente.
Os críticos dizem que o setor, em franco crescimento, está gerando
milhões de zumbis viciados que, devido à dependência dos jogos de
computador, estão abandonando a escola e as atividades de grupo
tradicionais, tornando-se fechados e até violentos.
"Os jogadores deixam de ter relacionamentos sociais
normais", disse o psiquiatra Kim Hyun Soo, 36, presidente do
Centro de Tratamento para Dependentes de Internet, um dos grupos
criados para fazer frente à dependência dos jogos na rede mundial.
"Os jovens estão perdendo a capacidade de se relacionar, a não
ser por meio de jogos. Pessoas que se tornam dependentes tendem a
apresentar comportamento violento."
Muito mais do que os EUA, a Coréia do Sul é uma sociedade voltada ao
grupo, onde a diversão com outros é a forma de interação preferida
e onde o individualismo ao estilo ocidental é malvisto.
Os críticos dizem que esse vem sendo o segredo da onda de jogos de
azar on-line, e os psiquiatras afirmam que o grupo é um fator crucial
para compreender o impacto exercido pelos jogos.
"Muito poucos de nossos clientes vêm sozinhos", disse Kim
Gi Beum, 29, proprietário da RA PC Zone, considerada a maior das
milhares de salas de jogos de computador na cidade de Pusan, ou
"PC bangs", como são conhecidas. "É claro que eles
poderiam jogar em casa, mas é mais emocionante estar com outros
jogadores, especialmente amigos."
Kim abriu seu negócio há três anos com um investimento de US$ 50
mil. Desde que concluiu a faculdade, trabalhara numa série de
empregos para economizar dinheiro para realizar seu sonho.
Agora, contou, ele atrai 1.200 jogadores por dia para sua loja, onde
eles pagam US$ 10 por hora para derrotar estranhos e exterminar alienígenas
on-line. Com um número semelhante de jogadores frequentando as outras
13 "PC bangs" que compõem seu império em expansão, Kim
aplica os lucros para criar seu próprio jogo on-line, ao qual já deu
o nome sugestivo de "History of Chaos".
"O que alimenta nosso negócio é o fato de que a maioria dos
pais não deixa seus filhos jogar em casa. Muitos vêm aqui depois da
aula e jogam de três a quatro horas."
As adolescentes que vão ao clube com suas amigas parecem trancar-se
tanto quanto os rapazes em um universo paralelo, mas é um universo
inteiramente diferente. Embora não haja separação obrigatória por
sexo nas PC bangs, muitas delas ficam horas tirando auto-retratos em
poses sorridentes, fazendo composições com flores, slogans para
enviar os resultados, sob a forma de cartões-postais digitais, a
amigos reais, imaginários ou desejados.
Alguns grupos de pais reclamam que as "PC bangs" estariam se
transformando em pontos de paquera, onde adolescentes trocam fotos
eletronicamente e decidem se querem ou não se encontrar na vida real.
Invertendo os padrões usuais numa sociedade dominada pelos homens, são
as garotas que assumem o controle desse jogo, passando aos candidatos
que despertam seu interesse informações sobre o clube e até mesmo
onde encontrá-las.
mais:
Viciados varam a noite jogando em
rede
HELOISA HELENA LUPINACCI
FREE-LANCE PARA A FOLHA
"Você só percebe que está viciado quando fala sobre algo que
aconteceu no jogo com a mesma empolgação com que falaria sobre uma
nova namorada."
É assim que Manuel (o nome dos entrevistados foi alterado a pedido
deles), 25, define o viciado em jogos de computador.
"Counter Strike é o preferido. Olhe à sua volta. De cada seis
computadores, cinco estão rodando o Counter." Olhar em volta
quer dizer observar as dezenas de computadores da Monkey Paulista, uma
LAN house -loja com micros ligados em rede com conexão de alta
velocidade.
O que se vê no espaço bem iluminado são meninos de dez anos jogando
com homens de 40. Às 18h, vieram da escola, do trabalho, ou estão
ali há horas.
"Aqueles que estão descobrindo os jogos tendem a se viciar.
Querem ficar bons", diz Tiago, 22, que gasta cerca de R$ 200 por
mês em LAN houses. Ele joga no almoço, no intervalo entre o trabalho
e a faculdade, depois da faculdade e nos fins de semana: "Sábado
[dia 27] eu vou fazer corujão [sessão que vai das 23h às 6h], tomar
café, votar e dormir o dia todo".
Ele diz que, quando o jogador já está bom, e a sensação de
descoberta acaba, sobra o hábito: "É como cigarro. Você
terminou com a namorada, pensa nela, aí fuma um cigarro ou joga
Counter".
Tomás, 26, emenda: "Então você tem que lutar contra o vício,
resgatar os amigos". Tomás é experiente no assunto, chegou a
jogar 18 horas seguidas e percebeu que estava viciado. Hoje, joga
depois do trabalho, "para relaxar".
Contraponto
No entanto, por mais você imagine adolescentes pálidos e prestes
a virar os olhos, há uma convivência à parte dos micros nas LAN
houses. "Fiz muitos amigos aqui. O pessoal pede pizza, toma Coca
e conversa no balcão."
Manuel aponta o lado negativo: "meninos de 12 anos estão ficando
obesos e corcundas".
A reportagem da Folha, que esteve no local às 18h de uma sexta,
voltou às 3h e, enquanto dezenas de pessoas jogavam no térreo da
loja, um grupo ocupava o salão, tomando refrigerante ou café.
Onde
Para se livrar do estigma de lugar inadequado, há casas com áreas
para descanso e promoções.
Por exemplo, a rede de lojas Monkey oferece horas gratuitas a alunos
com boas notas. É a promoção Boletim Escolar. A média de notas do
aluno é calculada e ele ganha horas de acordo com o resultado. Para
saber os endereços das lojas da rede, entre em www.monkey.com.br.
Na unidade Paulista (al. Santos, 1.217, Jardins, tel.
0/xx/11/3253-8627), durante a semana, depois das 17h, cada hora custa
R$ 3,50. Em finais de semana, R$ 4. Na WebZone (tel. 0/xx/
11/5535-2614, www.redplay.com.br),
o preço é R$ 3. De sexta a domingo, cada hora custa R$ 3,50. A Cyber
Games (tel. 0/xx/11/3891-2526, www.cyberlan.com.br) cobra R$ 3,50
durante a semana e R$ 4 de sexta a domingo.
leia mais:
Dois morrem por overdose de jogo
FREE-LANCE PARA A FOLHA
A preocupação das mães brasileiras ao ver seus filhos gastando
horas jogando é grande, mas provavelmente não passa pela cabeça
delas que exista o risco de acontecer algo tão grave como o que
ocorreu na Coréia do Sul, em que dois jovens morreram de overdose de
jogo de computador.
O primeiro, que tinha 24 anos, morreu depois de passar 86 horas
jogando sem parar. Identificado apenas como Kim, o jovem teria sentado
em frente ao micro, em um cibercafé, na sexta-feira à noite, dia 19
deste mês, e saído na terça-feira de manhã, dia 22. Durante o período,
ele não teria comido ou dormido o suficiente. Na manhã de terça,
ele desmaiou em frente ao balcão do cibercafé onde jogava, mas logo
recuperou a consciência. Depois, foi encontrado morto no banheiro do
local.
Passados alguns dias, outro aficionado por games morreu depois de 32
horas jogando. Lien Wen-cheng sentou em frente ao micro às 10h30 da
quinta-feira, dia 24, também em um cibercafé da capital sul-coreana.
Às 7h do sábado, um funcionário do local encontrou o rapaz estirado
no chão, com o nariz sangrando.
Os médicos que avaliaram o caso acreditam que a causa da morte de
Wen-cheng tenha sido exaustão, agravada pelo fato de ele ficar horas
na mesma posição.
A Coréia do Sul está entre os países que mais usam a internet. O país
tem cerca de 22 mil cibercafés e LAN houses. Muitos funcionam 24
horas por dia, mas menores de idade não podem entrar depois das 22h. (HHL)
veja ainda:
Sites oferecem apoio a viciado em
internet
FREE-LANCE PARA A FOLHA
Vício e internet podem não ser, separadamente, coisas novas. Mas o vício
por internet é, tendo começado a chamar a atenção dos estudiosos
no meio da década de 90. Embora poucos estudos tenham sido concluídos,
já existem várias fontes de informação sobre o assunto.
O viciado por internet encontra, no próprio vício, ajuda para se
livrar da dependência: sites oferecem testes que diagnosticam a
gravidade do caso e oferecem informações ao internauta.
Em www.addictions.org/internet.htm,
o internauta tem acesso a uma lista de sintomas, como comer na frente
do computador e perder a noção do tempo de conexão. O site www.stresscure.com/hrn/addiction.html
permite que o internauta faça teste para saber se está viciado. Uma
das poucas pesquisas que apontam números e dados sobre esse tipo de vício
está em www.addictionrecov.org/wrkguidewww.htm.
A intenção é mapear o perfil do dependente de rede.
Estudiosos norte-americanos expõem suas opiniões no Monitor on
Psycology (www.apa.org/monitor/apr00/addiction.html).
David Greenfield, fundador do site Centro de Estudos de Internet (www.virtual-addiction.com),
conduziu uma pesquisa com pessoas que visitaram o site da ABC News em
1998 e concluiu que os viciados procuram sites de chat, pornografia e
compras on-line, além de checar seus e-mails. O estudo também
apontou que a maioria dos viciados é do sexo masculino.
Nesse ponto há controvérsia. Kimberly Young, doutora em psicologia,
diz ter constatado que homens e mulheres ficam viciados com igual
frequência, mas de maneiras diferentes. Young coordena o Centro para
Vício em Rede (www.netaddiction.com).
Uma pesquisa publicada em 2000 no jornal científico "Addiction
and Compulsion" (vício e compulsão) revelou que o tipo de vício
de homens e mulheres é pautado pelo comportamento típico de ambos.
Mulheres flertam e praticam sexo virtual em chats, pois estariam a
procura de relacionamentos, enquanto homens procuram fotos e vídeos
em sites de pornografia, pois estariam um busca de estímulos visuais.
No Brasil, a psicóloga e professora da USP Maria Isabel Leme se
destaca no estudo do assunto. É possível ler alguns de seus
conselhos e dicas em www.uol.com.br/bparquivo/integra/mariaisabel20020419.htm,
transcrição de chat on-line com os leitores da revista "Ação
Games".
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